Novas usinas de biometano ampliam perspectivas para indústria e transporte a gás

BNDES aprova R$ 180,7 milhões para projetos em São Paulo e Espírito Santo; efeitos sobre GNV, postos e consumidores dependerão da logística, do destino da produção e dos preços praticados.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou R$ 180,7 milhões para financiar duas plantas de biometano em Mauá, na Grande São Paulo, e Vila Velha, no Espírito Santo. A operação foi divulgada em 22 de setembro de 2026.

Os empreendimentos somam investimentos de R$ 245 milhões e terão capacidade conjunta para produzir 97 mil metros cúbicos normais de biometano por dia. A unidade paulista responderá por 65 mil m³ diários, enquanto a capixaba terá capacidade de 32 mil m³.

As plantas pertencem à GNR Mauá e à GNR Vila Velha, empresas constituídas por uma parceria entre o Grupo Lara, especializado em gestão de resíduos, e a MDC Energia, que atua nos mercados de gás natural e biometano. Os recursos serão concedidos por meio do Fundo Clima e da linha BNDES Finem.

A previsão é que as operações comerciais comecem no primeiro semestre de 2027. A produção já está vinculada a contratos de longo prazo com a Ultragaz, mas não foi informado como os volumes serão distribuídos entre os mercados industrial, comercial e veicular.

Resíduos transformados em combustível

O biometano será produzido pela purificação do biogás gerado pela decomposição dos resíduos depositados nos aterros sanitários. O processo retira dióxido de carbono e outras impurezas, elevando a concentração de metano.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, o produto que atende às especificações de qualidade pode ser utilizado em aplicações veiculares, residenciais, comerciais e industriais. A regulamentação vigente está consolidada na Resolução ANP nº 1.006/2026.

O biometano também pode ser transportado comprimido por caminhões — sistema conhecido como gasoduto virtual —, liquefeito ou, dependendo da infraestrutura e das autorizações, injetado nas redes de distribuição.

Efeitos para indústrias e mercado livre

Para as indústrias, a nova oferta poderá ampliar as alternativas de contratação de energia renovável e ajudar empresas interessadas em reduzir as emissões associadas ao consumo de combustíveis fósseis.

O efeito sobre o mercado livre de gás, entretanto, não será automático. Como a produção está comprometida em contratos de longo prazo, será necessário conhecer as condições de comercialização, os consumidores atendidos e a forma de entrega.

Quando houver utilização das redes canalizadas, continuarão relevantes as regras estaduais, as tarifas de distribuição, os contratos de acesso e os tributos. Na entrega por caminhões, distância, compressão e logística influenciarão o custo final.

Postos, frotas e consumidores

Para os postos de GNV, as novas plantas representam uma fonte potencial de combustível renovável. A chegada do produto às bombas dependerá, porém, de contratos específicos, disponibilidade regional, transporte, infraestrutura de recebimento e conformidade regulatória.

As frotas precisam avaliar o custo total da operação. Além do preço do combustível, devem ser considerados o valor do veículo ou da conversão, a quilometragem percorrida, a localização dos pontos de abastecimento e a regularidade do fornecimento.

Para o consumidor, não há redução imediata prevista no preço do GNV. As unidades ainda entrarão em operação e a composição do preço dependerá da logística, dos contratos, das tarifas e dos tributos aplicáveis.

Oficinas e associações de proteção veicular

Para oficinas convertedoras e empresas de manutenção, uma oferta regional mais ampla e previsível poderá favorecer o interesse por veículos movidos a gás. O crescimento efetivo da demanda dependerá da competitividade do combustível e da expansão da rede de abastecimento.

Como o biometano em conformidade com a especificação da ANP é intercambiável com o gás natural, a origem renovável do combustível não cria, por si só, uma nova modalidade de conversão. Permanecem indispensáveis componentes certificados, instalação regular, inspeções aplicáveis, diagnóstico adequado e manutenção preventiva do sistema.

As associações de proteção veicular também devem continuar verificando a documentação da conversão, o estado dos componentes e a regularidade das inspeções. O abastecimento com biometano não elimina os cuidados técnicos e de segurança exigidos dos veículos convertidos.

As obras deverão gerar 575 empregos diretos e indiretos, além de mais de 50 postos permanentes durante a operação. O investimento amplia a infraestrutura brasileira de biometano, mas seus benefícios concretos para GNV, indústria e mercado livre serão determinados pela capacidade de conectar produção, logística, abastecimento e demanda a preços competitivos.

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